23/04/2012

Uma Visão Distorcida da Simulação

por Leonardo Chwif

Embora já soubesse de muitas práticas existentes que permeiam o mercado de simulação, só me “dei conta” da realidade “nua e crua” quando um fato interessante me ocorreu há algumas semanas atrás.

Convidei um colega meu, que é da área de Marketing, para assistir a uma palestra de Simulação, onde o palestrante apresentou diversos modelos de simulação desenvolvidos e, como através deles, resolveu muitos problemas de manufatura e logística. Ao final da palestra, perguntei a este meu colega, que é leigo no assunto, qual sua opinião. Ele me revelou prontamente: “É só colocar os dados num tal software de simulação que ele gerará a solução para você”. Realmente para quem está de fora parece isto, muito diferente da realidade do dia-a-dia do desenvolvimento de um modelo de simulação.

Refletindo “com meus botões”, essa visão, apesar de totalmente errônea, faz sentido, pelo menos à primeira vista. Isto porque normalmente apresentamos os “resultados finais” e pouco se discute qual foi o processo de obtenção dos resultados. Também costumamos valorizar muito o software. A conseqüência: Visão “Software-Cêntrica” da Simulação.

Esta visão parte do pressuposto que o software de simulação é o elemento principal em um estudo de simulação. É o fator chave para o sucesso de uma simulação. Como o software é o elemento principal, a pessoa que cria o modelo fica em segundo plano. Desta forma o valor do desenvolvimento de um modelo de simulação deve ser baixo, pois entra praticamente no custo de desenvolvimento o valor do software (amortizado por vários projetos) – afinal o software faz praticamente tudo....

Infelizmente esta visão é totalmente distorcida. O elemento mais importante em um estudo de simulação é o que chamamos de modelador. O modelador é quem irá criar um modelo totalmente do zero, baseado em técnicas e em “arte”. Sim arte! Segundo Shannon a simulação é uma ciência e uma “arte”. E ainda de acordo com Banks: “Simulação não é um software, é uma disciplina”. Isto prova que a visão realística é a visão “Antropocêntrica”, ou seja, o homem, ou o modelador é a figura mais importante em um estudo de simulação. Portanto para se criar um modelo é preciso muita dedicação, experiência, conhecimentos e arte. Neste sentido o software de simulação é apenas uma ferramenta do seu criador. Parafraseando também outra figura ilustre da simulação, Charles Harrel: “A fool with a tool is still a fool”, ou seja, um tolo com uma ferramenta ainda é um tolo....

Infelizmente a visão “Software-Cêntrica” impera, trazendo as seguintes conseqüências:

- Estudos de simulação cujo objetivo é a construção de um modelo qualquer em um software, sem preocupação com o processo de tomada de decisão em si, que na realidade é a mola principal de um estudo de simulação.

- Valores cada vez mais baixos de desenvolvimento de um modelo, pela contratação de pessoas que conhecem muito bem um determinado software, mas pouco conhece sobre o processo a ser modelado ou métodos estatísticos de análise de dados de entrada / saída de um modelo de simulação.

- Contratação por parte das empresas de projetos de simulação baseados no menor custo, como se a simulação fosse um “commodity” como farinha de trigo ou alumínio.

Todavia a pior conseqüência é a de longo prazo: a simulação vai sendo desacreditada, pois não auxiliou realmente o processo decisório. Não se tornou um meio para um fim, e sim um fim para um fim: “O diretor mandou fazer uma simulação”, então vamos fazer qualquer coisa...

É preciso reavaliar estes valores. É preciso entender melhor como funciona o processo de construção de um modelo de simulação. É preciso enxergar que há muito mais do que um software por traz, talvez décadas de aprendizagem e experiência....

Tenho fé que as coisas irão mudar. Talvez lentamente, mas irão mudar. Bem pelo menos tentamos dar o pontapé inicial....

 

Leonardo Chwif é graduado em Engenharia Mecatrônica pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, Mestre pela USP e Doutor pela USP/Brunel University (U.K) em simulação de processos. Leonardo possui inúmeros artigos em simulação publicados em periódicos e conferências nacionais e internacionais. Possui mais de 15 anos de experiência em simulação, tendo trabalhado também em grandes empresas como Mercedes-Benz e Multibrás Eletrodomésticos. Já realizou mais de 100 projetos de simulação. Juntamente com Afonso Celso Medina é autor do Livro: Modelagem e Simulação de Eventos Discretos. Atualmente é sócio diretor da empresa Simulate Tecnologia de Simulação Ltda (www.simulate.com.br).

 

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