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A desconfortável semelhança entre alguns executivos e os políticos brasileiros

A inércia e a falta de inteligência digital do PPCP impactando os resultados negativos das indústrias

Artigo | Por Vanessa Maciel Husemann*

Nunca antes na história deste País se falou tanto dos políticos e suas condutas como atualmente. Fazia-se até ideia de que não eram propriamente seres angelicais, mas da maneira com que, agora, tudo está vindo à tona, é de “embrulhar” até aqueles que têm estômago mais forte.

Podem ser citados dois principais fatores para justificar esse comportamento: preocupar-se mais com os seus próprios interesses do que os da maioria que lhe conferiu confiança e o nocivo modus operandi, no estilo imediatismo raso, aquele modo de execução de ações pífias, mas que dão certa notoriedade, em curto prazo, e que não comprometem a popularidade. Afinal, planejar em longo prazo pode não garantir um novo mandato.

Pode ser que “não seja por mal”, mas foi sem perceber ou mesmo um hábito enraizado no comportamento de grande parte dos brasileiros. Entretanto, infelizmente, alguns executivos estão causando, com a omissão e/ou falta de interesse e visão estratégica inteligente, grandes danos ao futuro da indústria, frente ao mundo que se prepara velozmente aos conceitos da indústria 4.0.

A pouca disposição para o planejamento
Sabe-se que o Brasil possui pouca capacidade de planejamento. Parece que está no DNA o famoso jeitinho que muitos confundem erroneamente com criatividade, que é uma bênção, mas o jeitinho e o improviso em operações estratégicas são amadorismos.

Nas indústrias, o executivo é eleito por proprietários e investidores, que confiam a ele a missão de administrar com eficiência e eficácia a operação corrente, mas, ao mesmo tempo, de alertá-los quanto às melhores práticas e alternativas de gestão, de acordo com as tendências do futuro.

Um futuro “brilhante” acontece com visão, planejamento e monitoramento árduo. Não acontece por acaso. Seria possível galgar outros patamares de excelência, mas “se nada muda, nada muda”.

O perigo da zona de conforto
Comprar a briga e entrar de cabeça em projetos inovadores dá muito trabalho. É quase como colocar a mão em um vespeiro o desconforto de tentar provar para um fiel veterano de que tudo o que vinha funcionando há anos poderia ser feito de forma totalmente diferente e com resultados substancialmente melhores.

Ouvi algo interessante do terapeuta Roberto Shinyashiki: “todos os seres humanos possuem uma característica intrínseca, que é a luta pela sobrevivência e poder”. Quando o nato radar percebe que uma mudança poderia trazer algum tipo de desconforto, insegurança, risco, mesmo em favor de um objetivo nobre, e isso talvez pudesse abalar o domínio sobre a atual situação, o primeiro instinto é pensar “se dá para esperar mais um pouco ou é melhor deixar como está”.

Oportunidades reais de ganhos existem em todas as indústrias, mas a inércia cega
Por que, no Brasil, a quarta revolução industrial não acontece na velocidade desejada? Esse é um assunto pelo qual me interesso, convivo diariamente e tenho estudado bastante.

De acordo com um dos maiores especialistas em tecnologia dos Estados Unidos, Alec Ross, em seu livro “The industries of the future”, um dos principais impactos, fruto da tecnologia, é a emancipação do ser humano do trabalho repetitivo para o trabalho de análise e melhoria contínua.

Querendo ou não, vive-se esse momento, pois se está no epicentro da quarta revolução, na qual vidas serão impactadas, bem como indústrias. Apenas para citar como às vezes as pessoas são resistentes ao novo, lembro-me quando os primeiros celulares surgiram e ouvi muitos dizerem: “para que isso?” Acho esnobe. Não dá para esperar um pouco e conversar pelo telefone fixo mesmo?” Obviamente, dispensa comentários de que a resistência foi atropelada.

Dentro da indústria, o papel da tecnologia é também inverter a proporção do tempo que se é gasto em trabalhos rotineiros, que não agregam mais valor ao produto. Porém, a constatação que se tem é como na Lei de Pareto: perde-se 80% dos esforços fazendo a extração de dados e cálculos manuais, para a obtenção de respostas essenciais, e se investe apenas 20% do tempo em análise de resultados, cenários e possibilidades. Essa inversão traria melhores resultados para a empresa, sem dúvida alguma. Porém, por que isso que parece ser tão óbvio não é perseguido pelos executivos?

Sabe o quanto foi investido em inteligência em soluções de planejamento e programação da produção nas indústrias, nos últimos 20 anos?
Por que as atividades rotineiras desses setores são realizadas da mesma maneira como eram realizadas há 20 anos? Não pretendo ser soberba, desculpe-me, mas a situação é patética, trágica e nada cômica.

As indústrias investem pesado em infraestrutura, máquinas, equipamentos, centros de distribuição, automação de almoxarifados, entre outros, com a finalidade de produzir mais, crescer e isso é ótimo. No entanto, como e onde investiram em inteligência tecnológica para administrar e conduzir melhor todo esse arsenal disponível? Onde está a inteligência avançada, que otimiza o uso de todos os recursos da produção e que considera e otimiza todas as restrições de processo, variáveis e exceções?

Veja se esse não é o “x da questão”: é muito mais fácil comprar uma máquina, que, segundo o fabricante, produz 10 vezes mais por hora do que estudar softwares, que, por definição, não são palpáveis. Como colocar a “mão no fogo”, na comprovação de que tal solução poderia diminuir o tempo do ciclo do processo em 40% e reduzir os estoques em 30%? Se a máquina não produzir “x” por hora, devolve-se ao fabricante. Já o software é mais difícil de provar, pois requer muito trabalho. Se não for bem implementado, pode ser um risco. Será que vale a pena entrar nessa questão? É melhor esperar mais um pouco. “A situação está tão feia, que é melhor não fazer estripulias.”

Esse é um exemplo de inércia. Estudar o que é novo e se arriscar com o que não está totalmente sob controle pode ser um risco pessoal, mesmo que centenas de empresas testemunhem o contrário. Nessa linha, alguns dos “executivos eleitos” deixam muitas ações estratégicas para amanhã.

Cabe cruzar os dedos, para que os concorrentes do outro lado do mundo ou da rua não estejam fazendo com mais excelência o mesmo que você faz. Torça para que eles não ocupem os espaços da prateleira que a ineficiência da sua fábrica há de abrir. Tomara que eles tenham mais capital empregado em estoque encalhado, que não foi possível faturar “a tempo” e tenham uma produção menos ágil e enxuta do que a sua, bem como mais desperdício de recursos do que você. Caso contrário, a situação poderá ficar ainda pior.

Até quando a produção será tratada como operacional e pouco estratégica?
Empresas brasileiras foram tomadas pela visão de que a produção é uma parte operacional. Basta que alguém venda e a produção tem apenas de produzir. As máquinas e as pessoas estão ali, é só preciso ligá-las a todo vapor e tudo se desenvolve. Ledo engano.

A área industrial tem nas mãos o poder de alavancar os resultados da companhia ou afundá-los de vez. Um bom exemplo é o que se vive hoje na maioria das indústrias: uma falta gritante de otimização inteligente dos recursos existentes. Isso é um câncer que corrói lentamente os resultados de qualquer indústria.

Você, alto executivo, que pagou milhões de dólares pela implantação de um Enterprise Resource Plannig (ERP), realmente sabe, muitas vezes, como funciona, na prática, a condução de suas fábricas e todo o arsenal tecnológico que já foi investido? Funciona, muitas vezes, na base da planilha do Excel, da maneira como tem funcionado há décadas: com “artesãos” dotados pelo incrível dom sobrenatural da adivinhação, que decidem, manualmente, como, quando e onde a fábrica produzirá.

São eles que “encaixam” as prioridades e administram as diversas restrições de produção. Quer um exemplo de uma maneira fácil de entender? Como você acha que eles administram as matrizes de setup, que variam em função do item anterior e posterior produzido em uma mesma máquina? Na “unha”. Essa matriz não está nem cadastrada no seu ERP. Não existe o cadastro dos tempos variáveis de setups em função dos parâmetros de produção de cada item. Porém, na vida real, existe sim, mas isso está na memória RAM de alguém.

Esse processo decisório é realizado todos os dias ou várias vezes no mesmo dia, basta que aconteça qualquer evento “não previsto”, como o aumento de demanda, a variação no mix, a quebra de uma máquina, entre outros. Esses artesãos despendem da energia de quem corre a maratona de Nova Iorque, mas o pior é que correm a maratona descalços. A verdade é que todas as operações do seu processo produtivo são sequenciadas manualmente.

Tudo o que foi vendido dificilmente, com investimentos em marketing, design e inovação, agora, será ou não produzido na data correta.

Por exemplo, apenas se o seu maratonista não esquecer de algum detalhe entre a imensa gama de detalhes que uma fábrica possui. Parece uma piada, mas não é.

Lamentavelmente, o que dita as regras de otimização de algumas fábricas é a combinação: uma mega planilha mirabolante que o Planejamento, Programação e Controle da Produção (PPCP) criou mais os imprevistos diários de qualquer fábrica, mais o feeling e o humor do artesão. O humor conta muito, porque é esse artesão humano que se prostra diante daquela planilha que trouxe da outra empresa onde trabalhava, com fórmulas escritas em “aramaico” e tenta raciocinar todo dia de manhã, com a sua mente cheia de anseios, inclusive, pessoais. Seu poder de concentração é influenciado por fatores naturais da vida. Como serão os critérios do perfeito sequenciamento da sua produção hoje? Só resta desejar boa sorte.

Infelizmente, essa planilha com a qual se “decide tudo” não trará boas ideias de como armazenar o inflado estoque indevidamente comprado ou produzido dentro dos seus milhares de metros quadrados cobertos por um teto, chamado fábrica.

Saiba que, nesse momento, o seu estoque está mais alto do que devia, porque a planilha mágica não evita minimamente a falta de sincronismo imprescindível entre todas as operações do fluxo produtivo do produto. Itens faltarão e sobrarão. Há de convir que acertar esse timing do conjunto perfeito não é uma aposta, mas um dos segredos de produtividade, cuja busca deveria ser ávida e incessante. Alguma dúvida ainda de que isso faz sentido?

Se alguns executivos brasileiros se atentassem um pouco mais ao futuro e fizessem um benchmarking das melhores práticas do mercado, rumo à inovação dos processos operacionais, para agregar inteligência ao planejamento da produção, talvez o Brasil não estivesse na 81ª posição no ranking mundial de competitividade. Por favor, não jogue toda a culpa na crise e no “custo Brasil”. É verdade que se sofreu as consequências de operar em um país, cuja burocracia é imensa, onde os empresários têm de driblar pegadinhas tributárias difíceis de decifrar e há uma falta de infraestrutura, além de pessoas desonestas, que processam indevidamente as empresas onde trabalharam, convivendo-se, ainda, com cidadãos oportunistas. Porém, por que não se faz o que está ao alcance?

Ingenuamente, alguém acredita mesmo que não existe outra maneira para se planejar, programar e antecipar surpresas desagradáveis, que toda indústria enfrenta? Respostas claras e precisas para se “é possível entregar na data correta” poderiam ser fornecidas com rapidez e precisão, a qualquer momento, diante de uma nova demanda, cenário ou imprevisto. Entretanto, a maioria não responde a essas perguntas com rapidez, muito menos de forma clara ou com proposição de melhores alternativas, baseadas em indicadores reais.

Esse é um alerta para os empresários e investidores, sem crachá e sem partido. Esse relato é uma angústia quanto ao rumo que as indústrias estão seguindo, na contramão da Era digital. É certo que muitos desconhecem o assunto e entendo perfeitamente, mas muitos, mesmo depois de ouvirem os possíveis resultados que poderiam obter, após a implantação de uma solução de Advanced Planning & Scheduling (APS), que trata e resolve pontualmente essas questões, viram as costas e administram a operação como sempre. Embora eu não entenda, essa omissão deve ser cômoda para alguém, mas, certamente, é extremamente nociva para o futuro das empresas.

Sou brasileira e torço pelo Brasil. Porém, conhecendo e trabalhando em várias indústrias multinacionais, de todos os tipos, nos quatro cantos do mundo por onde já passei, é com pesar que vejo a limitação de visão estratégica que se tem neste País. Como essa inércia e o medo da inovação cega alguns dos executivos eleitos, a ponto de não agirem devidamente em prol de quem os elegeu e os sustentam?

Para os de muita fé, melhor torcer para que Deus seja brasileiro e possa nos ajudar. Porém, uma coisa é sempre certa: cada um colhe o que planta.

O que deve ficar aqui é a reflexão: quando esse Tsunami da crise passará, em qual posição de competitividade estará a sua empresa, frente aos que não estão passando por essa crise e/ou aos que, desde agora, estão investindo em processos organizacionais mais inteligentes?

 

* Vanessa Maciel Husemann é economista, formada em Gestão Empresarial pelo MBA da Fundação Getulio Vargas (FGV), com especialização em Gerenciamento de Projetos pela Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA/USP). Ela também é pós-graduada em Logística Empresarial pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e especialista em Planning & Scheduling há 20 anos, com vários cases de implantação de solução de APS no Brasil e no exterior.

 

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